História

Barqueiros é uma freguesia pertencente ao município de Barcelos, distrito de Braga, com 8,07 km² de área, e 1916 habitantes. A sua densidade populacional é 237,4 hab./km². 

História

Barqueiros teve origem no povoado romano do Adro Velho onde existiu uma minúscula paróquia que deveu a sua existência e independência à importância económica e estratégica na antiguidade, na altura em que ainda existiria o lago alimentado pelo rio Cávado que se estenderia até à Barca do Lago.

A atual freguesia de Barqueiros formou-se da junção dos antigos territórios de Barqueiros, Lagoa Negra e parte do Couto de Bassar, administrado pelo Couto de Apúlia.

A paróquia de S. João de Barqueiros já aparece referenciada em 1059 no livro de D. Mumadona, no inventário das igrejas de Guimarães. Porém, somente abrangeria os atuais lugares de Barqueiros, Jouve e parte de Prestar. Situava-se a norte da ancestral estrada carreira velha, assim designada em 1288, atual Rua de S. João do Santuário à antiga igreja matriz.

Barqueiros não aparece nas inquirições de 1220. Contudo, aparece nas de 1258 (D. Afonso III) e 1288 (D. Dinis). Nestas é referido o lugar de Jouve.

Nas inquirições de D. Dinis – 1308 – há referência a duas quintas em Jouve, foreiras ao Mosteiro de Santo Tirso. Uma delas, dos Teixeira Montenegro, ainda o era em 1828.

 

Lagoa Negra

A Povoação de Lagoa Negra, que abrangia a maior parte da área da atual freguesia, aparece referenciada em 1108 no Liber Fidei (Lacona Nigra), tendo os seus limites descritos nas inquirições de 1288, os quais iam para sul da atual estrada da velha igreja paroquial ao atual Santuário de N.ª Sr.ª das Necessidades (Rua de S. João) até Laúndos e de Criaz ao ribeiro que vem dos Poços Negros (entre Cerqueiras e Salgueiros – Cristelo).

Lagoa Negra também não aparece nas inquirições de 1220. Aparece nas inquirições de 1258, nas quais, curiosamente, os inquiridores propuseram ao rei a constituição de uma paróquia.

Em 1140, na descrição dos limites de Vila Mendo e Estela, sem referir Lagoa Negra, há referência ao outeiro de Aqualada ou Aqualata (elevação de terreno onde se encontram os limites de Barqueiros, Apúlia e Estela), pois ficava junto ao ribeiro Aqualada que vem da lagoa de Lagoa Negra. Refere também o ribeiro Fontanelo, que nasce junto ao nó da Estela da A28.

O lugar de Vilares pertenceu a Lagoa Negra. No reinado de D. Dinis, em 1292, este lugar foi dividido em três casais que perduraram durante séculos. Ainda eram referidos em 1700. Nesta altura, esses três eram referidos como o Casal de João Barbosa, o Casal do Testudo e o Casal do Direito. Em cada casal viviam várias famílias.

 

Bassar

A povoação de Bassar ou Couto de Bassar corresponde aos atuais lugares de Talhos, Necessidades, Terreiro e Abelheiros e também aos lugares de Bassar, Cerqueiras e Feiteira da freguesia de Cristelo. Os seus limites foram descritos em 1703. Além dos lugares mencionados, estendia-se pelas lagoas até ao sopé do Monte da Igreja, em Cristelo, e até à ponte do Estreito.

Este território era administrado pelo Câmara do Couto de Apúlia e na parte religiosa era meeiro entre as paróquias de S. João de Barqueiros e do Salvador de Cristelo: era administrado ano sim ano não pelas ditas paróquias, constituindo a alternativa eclesiástica de Bassar até 1862.

Na administração do Couto aí tinha sede o tabelião (notário), já referido no séc. XVI – no tempo do Arcebispo D. Diogo de Sousa (1505-1532) – cargo que até 1704 esteve na família dos Velosos de Miranda.

Foi no Couto de Bassar que foi erigido o primitivo oratório, depois uma capela e por fim o Santuário de N.ª Senhora das Necessidades nas décadas de 1740 e 1750.

 

Barqueiros atual

Os territórios de Barqueiros e Lagoa Negra já aparecem unidos nas inquirições de 1343, no reinado de D. Afonso IV.

A parte da povoação de Bassar – Necessidades, Terreiro, Talhos e Abelheiros – só se uniram a Barqueiros em 1862, com o decreto régio da divisão da povoação de Bassar entre Barqueiros e Cristelo e extinção da alternativa eclesiástica, ou seja, do que restava do Couto de Bassar do Couto de Apúlia, este extinto com as reformas administrativas em novembro de 1836. Note-se que com esta reforma, Barqueiros esteve integrado no concelho de Esposende desde esta data até fevereiro de 1838.

 

Durante séculos, a freguesia estruturou-se ao longo dos vales periféricos: lugares de Prestar, Jouve, Barqueiros (ou Igreja), Vilares e Lagoa Negra. O núcleo mais povoado na atualidade: Necessidades, Terreiro, Abelheiros, Telheiras e Cruzinhas era um território despovoado. Mesmo o alto do Monte de Bassar – onde está o Santuário das Necessidades – era despovoado e com muitos baldios no séc. XVIII. Até meados da década de 1680, os lugares habitados eram Jouve, Igreja ou Barqueiros, Vilares e Lagoa Negra, excluindo os do Couto de Bassar.

 

Igrejas de Barqueiros

Até à construção do Santuário, a freguesia era pouco povoada e pobre. A paróquia rendia pouco o que levava a que houvesse dificuldades em fixar párocos. Pode ser uma justificação para aparecer anexada a Fonte Boa em 1482. Assim esteve até 1842 (legalmente até 1833).

A Igreja de Barqueiros esteve anexada à Colegiada de Guimarães. Em 1223, aparece no pacto de divisão das rendas de um vasto património entre o Prior e o Capítulo dessa Colegiada. Em 1482, passou para a alçada real.

No início do séc. XVIII, no local do primitivo povoado romano de Barqueiros – atual Adro Velho – só existia a igreja paroquial. Como estava decadente e em sítio ermo foi ordenada a sua transposição, em 1720, para a colina imediata a poente (sítio do Calvário), para junto do povoado. Como os paroquianos se opuseram, alegando serem pobres, foi reconstruída à custa do Abade de Fonte Boa e de Barqueiros, Dr. Afonso de Meira Carrilho. Aí se situava o centro cívico de Barqueiros.

 

A velha igreja de Barqueiros manteve-se igreja matriz até dezembro de 1930. Neste mês passou para o Santuário das Necessidades, após uma década de lutas entre fações a favor e contra essa passagem. A residência dos capelães passou a residência paroquial em março de 1931.

 

O Santuário de N.ª Sr.ª das Necessidades

A estruturação urbana da freguesia, ou seja, a deslocação do centro da freguesia do lugar de Igreja ou Barqueiros para as Necessidades iniciou-se com a divulgação local do culto a Nossa Senhora das Necessidades e consequente construção do respetivo Santuário. A iniciativa deveu-se a Frei João Veloso de Miranda Matos Godinho que trouxe de Lisboa uma imagem e a colocou num nicho ou oratório que preparou próximo à Quinta da Torre de Bassar (no sítio ou lugar do Cruzeiro), quinta dos seus antepassados Velosos de Miranda.

 

Apregoadas as graças e virtudes, a sua devoção alargou-se, aparecendo já enraizada em Cristelo em testamentos de 1745. A sua fama continuou a alastrar-se pela região, gerando um grande movimento de peregrinos e avultadas esmolas que deu para iniciar a construção de uma capela em 1746, a substituir o primitivo nicho ou oratório. Em 1750 iniciou-se a construção do atual Santuário, sendo demolida a anterior capela em 1762. Neste ano sagrou-se o Santuário, faltando ainda construir a frontaria. Inicialmente tinha uma tribuna ou retábulo-mor simples. O atual foi projetado em 1774 pelo conhecido arquiteto bracarense, Carlos Amarante. A talha foi executada em Braga pelo entalhador bracarense Álvaro José Pereira.

 

A romaria

O Santuário, construído em Bassar, junto aos limites de Barqueiros, num local de bouças pouco produtivas, era constantemente visitado por devotos, sendo o maior afluxo por ocasião da romaria, nos dias 7 e 8 de setembro e domingo seguinte a estes dias. Tal facto motivou a doação de uma vasta área de terreno – o atual Terreiro – para as romarias, por parte do Arcebispo D. Gaspar de Bragança. Estas festas foram, na segunda metade do séc. XVIII e séc. XIX, das mais afamadas da região, havendo registos de romeiros vindos da região costeira entre a Maia e Viana do Castelo.

A romaria já era mencionada em 1746 pelo Arcebispo D. José de Bragança que dizia que João Veloso de Miranda administrava um oratório da invocação de Nossa Senhora das Necessidades que por sua devoção fizera na freguesia de São João de Barqueiros, lhe costuma fazer sua festa sem haver descaminho de esmolas.

 

Real Santuário

O Santuário, com o seu capelão, tinha uma gestão autónoma da paróquia de S. João de Barqueiros, sendo frequentes os atritos com o pároco desta. Para minorar esses conflitos, o Arcebispo de Braga aconselhou o capelão a pedir a proteção real, sendo atendido e o Santuário elevado à categoria de Capela Real por D. Luís, por alvará Régio de 24 de abril de 1872. Daí a designação de Real Santuário de Nossa Senhora das Necessidades.

Ainda nesse ano, a 28 de junho, na sua frente, no Terreiro, parou o rei D. Luís na sua viagem a Viana do Castelo e ao Minho. Aqui o esperaram o governador civil de Braga, o administrador do concelho de Barcelos, juiz de direito e outras autoridades de Braga e Barcelos.

A partir de 1800 inicia-se a construção de moradias na orla norte do Terreiro em lotes de terreno pertencente ao Santuário, denominado Bouça da Senhora das Necessidades.

 

O Santuário alterou o território

Em 1812, o Terreiro aparece referenciado como rodeado de casas, havendo algumas destinadas ao apoio dos viajantes. Nas proximidades, aproveitando oportunidades de negócio com o movimento de peregrinos e romeiros, surgiu um importante centro produtor de telha e tijolo que deu origem ao atual lugar de Telheiras.

O aspeto urbanístico atual foi executado a partir de 1951, ficando com uma alameda central com o seu cruzeiro e as duas avenidas laterais, bem enquadradas no conjunto. As obras iniciaram-se em outubro de 1951, continuaram durante 1952 e estavam em fase de conclusão em dezembro de 1953. A 19 de março de 1952, foi inaugurado o cruzeiro. As árvores foram plantadas na primavera de 1953. As obras de arranjo do adro e terrenos em volta do Santuário também se executaram em 1952.

 

O Santuário, a nível regional, influenciou também o desenvolvimento de novas estradas. Logo em 1759, a confraria que ainda administrava o Santuário (ainda em construção) pede ao rei D. José uma ponte para a chamada lagoa das Necessidades, entre Rio Tinto e Cristelo, em direção a Vila Seca e Barcelos. Mais tarde, a importância desta via foi realçada com a nova estrada real (n.º 30), da Póvoa de Varzim a Valença, passando pelas Necessidades e Barcelos. Quanto a esta, em abril de 1864, a Câmara de Barcelos tentava impor o traçado da nova via sobre a antiga estrada para Vila do Conde (mais ou menos o traçado atual), contra a vontade dos moradores que propunham outra solução após a Ponte do Estreito, na Feiteira, direta ao Terreiro das Necessidades, seguindo pelo meio deste. Vingou o traçado atual, posto a concurso em maio de 1868, completando-se assim a estrada nova no troço entre a Póvoa e Barcelos.

 

Telheiras

O lugar de Telheiras – o mais populoso da freguesia – surgiu com a instalação de fornos de telha numa zona despovoada, de modo a aproveitar uma oportunidade de negócio com a vinda constante de peregrinos ao Santuário. Matéria-prima não faltava na freguesia.

A referência mais antiga relativa às telheiras encontra-se no contrato da fase final de construção do Santuário, realizado em 1756. Aí especificava-se que o mestre construtor utilizaria o tijolo feito nas telheiras vizinhas e da mesma freguesia. Ou seja: o tijolo das abóbadas do Santuário foi fabricado nas Telheiras.

A época de maior venda acontecia na altura da romaria das Necessidades. Por exemplo, há notícia da telha das Telheiras, em 1906, em Ferreiró (Vila do Conde).

Atualmente praticamente não há vestígios dos mais de 20 fornos que existiram na primeira metade do século XX.

A sua memória perdura, muito contribuindo para isso o Rancho Etnográfico “A Telheira de Barqueiros”.

 

Minas de Lagoa Negra

O lugar de Lagoa Negra é um território com potencialidades em vários minerais, além do ouro explorado na antiguidade. Por exemplo, em 1866, noticiava-se o registo de descoberta de uma mina de chumbo; em 1874, era anunciado a intenção de se explorar uma mina de ferro; em 1906 há notícia do registo de uma mina de antimónio; em 1917, da descoberta de uma mina de antimónio e ainda nesse ano, do registo duma mina de ferro e carvão.

Quanto a exploração mineira que ainda continua, Barqueiros ficou célebre durante a década de 1980 pelos protestos da população contra a extração de caulino a céu aberto no centro da localidade, um episódio longo que ficou conhecido como a Guerra do Caulino ou Guerra dos Caulinos. Iniciado em 1986 este conflito arrastou-se até se saldar na morte de um rapaz em 1989.

 

Beneméritos e vultos marcantes

Há três vultos marcantes na história de Barqueiros:

— Abade Dr. Afonso de Meira Carrilho – nasceu em Castelo de Vide a 13 de setembro de 1655 e faleceu em Braga após 1728. Foi abade de Fonte Boa e Barqueiros. Reconstruiu a velha igreja matriz à sua custa em 1720, deixando ainda rendimentos para o seu funcionamento. No seu testamento deixou verbas para confrarias de Fonte Boa e Barqueiros, bem como uma esmola para os mais necessitados.

— João Veloso de Miranda – Nasceu na Quinta da Torre a 3 de fevereiro de 1700 e faleceu em16 de dezembro de 1783. Oriundo de uma família que deixou marcas na magistratura no país e na vida militar e ciência no Brasil, matriculou-se na Universidade de Coimbra em 1728, tendo seguido para Lisboa por volta de 1731. Aqui teve contacto com a grande devoção do rei D. João V a N.ª Sr.ª das Necessidades. Assim influenciado, trouxe para Bassar uma imagem dessa invocação, construiu um nicho ou oratório o qual esteve na origem do atual Santuário. E daí formou-se o atual aglomerado urbano de Necessidades – Telheiras num território até aí despovoado.

— Domingos Gonçalves Carregosa e Silva – Nasceu no lugar de Telheiras a 18 de julho de 1823 e faleceu a 9 de agosto de 1903. De origem muito pobre, emigrou para S. Paulo – Brasil em 1859. Aí fez fortuna a qual empregou na construção dum colégio nas Telheiras, que doou aos franciscanos de Montariol, e que funcionou como uma extensão deste convento franciscano. Esse colégio – Colégio de S. Luís de Tolosa – funcionou de 1906 até à implantação da República em outubro de 1910. Aquando do seu encerramento forçado tinha 43 alunos, provenientes de vários pontos do país.

Além destes, realça-se o Arcebispo D. Gaspar de Bragança pela doação do terreno do atual Terreiro.

Nos finais do séc. XVIII e princípios do XIX destacam-se os irmãos José Joaquim Azevedo Ferreira e Cónego D. Inácio de Jesus Maria Azevedo Ferreira que deixaram legados para a igreja e para pobres de Fonte Boa e Barqueiros. Realce-se também o Padre José António Gonçalves, nascido nos Vilares a 7 de dezembro de 1836 e falecido no mesmo lugar a 21 de setembro de 1908. Emigrou para o Brasil onde teve ação marcante no Estado do Paraná, onde chegou a ser presidente da Câmara de Conchas e agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, além de outros cargos. Também deixou legado à freguesia para um sino e para início da construção de uma escola.

Depois há uma lista de personalidades das quais se destaca: Manuel Gomes Vinha e irmão António Gomes Vinha, Tibúrcio Lopes dos Santos, Manuel Dias da Costa (empenhado na criação das escolas primárias masculina e feminina na freguesia); Doutor Quirino Augusto de Sousa e Cunha com cargos na Justiça em Barcelos, Esposende, Guimarães; José Augusto Fernandes Igreja, prestigiado pirotécnico; Professor António da Silva Montenegro; Médico Dr. Ismael Pires de Oliveira que casou com D. Lucinda Montenegro e foi um médico amigo dos pobres; Emídio José Gonçalves Serra que deixou referências no Recife (Brasil); Major António Inácio de Sousa Gusmão; Sargento José Gomes de Figueiredo que fez carreira militar como músico e compositor; Madre D. Ana Umbelina Rosa de S. José que foi durante muitos anos madre regente do Recolhimento do Menino Deus, Barcelos; não esquecendo Padre Paulino Manuel do Vale Novais.

Fontes:

– ARAÚJO, António Veiga de – Barqueiros, retalhos da sua história, Barqueiros, 2001.

– ARAÚJO, António Veiga de – Barqueiros, terra com história, (no prelo).

– ARAÚJO, António Veiga de – Domingos Gonçalves Carregosa, Barqueiros, 2015.

– ARAÚJO, António Veiga de – Rumo à Barca do Lago, Esposende, 2013.

 

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